O
presidente Jair Bolsonaro voltou a defender a hidroxicloroquina para o
tratamento da Covid-19, no passeio que fez ontem por cidades-satélites de
Brasília, contrariando as normas de segurança para deter a pandemia. Mas a
única certeza que se tem, até agora, sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina é
que elas matam, se mal administradas.
O interesse
sobre os dois componentes de remédios contra a malária foi despertado porque
tiveram êxito em dois pequenos estudos sobre a Covid-19. O
primeiro foi descartado porque tinha erros graves. O segundo foi realizado com
seis pacientes e não comprovou eficácia. Mostrou que reduziam a concentração de
vírus. Isso não significa deter a doença, cuja fase grave é causada por
inflamação e não mais pelo vírus propriamente dito.
O resultado
indicou potencial apenas para testes num número maior de pacientes. E é isso
que a OMS e 50 países vão fazer, não só com elas, mas com outras drogas, como o
muito mais promissor remdesivir.
Testar não
é não é o mesmo que dar esses remédios indiscriminadamente a todos os pacientes
graves. Os testes da OMS servirão para descartar mais depressa tudo o que não
funciona e levar adiante as drogas que mostram eficácia num número
significativo de pacientes.
Existe uma
máxima em ciência: o risco de um medicamento não pode ser maior do que o
benefício que ele oferece. Esse é o caso da cloroquina e da hidroxicloroquina.
O risco é muito maior do que os supostos benefícios.
Se são perigosas
e não têm garantia de eficácia, por que então chamam tanta atenção? Porque o
presidente Donald Trump, criticado por desdenhar a pandemia e demorar a agir,
anunciou, sem qualquer embasamento, que elas eram uma esperança. Bolsonaro,
igualmente sob críticas, não tardou a repetir. Trump voltou atrás. Bolsonaro,
não.
Não é a
primeira vez que Bolsonaro tenta dar à população pílulas sem comprovação
alguma, mas que prometem maravilhas. Em 2016, quando era deputado federal, fez
dobradinha com a então Presidente Dilma Rousseff para dar a chamada “pílula do
câncer” aos pacientes graves da doença. Em janeiro deste ano, já presidente,
voltou à carga e criticou o Supremo Tribunal Federal por ter proibido a pílula,
feita de fosfoetanolamina.
A
fosfoetanolamina foi totalmente fracassada em testes. A pílula foi criada por
um professor do Instituto de Química da USP chamado Gilberto Chierice. Ele
morreu no ano passado, acusado de curandeirismo pela própria universidade.

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