segunda-feira, 30 de março de 2020

Remédios defendidos por Bolsonaro contra coronavírus podem matar, se mal administrados


O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender a hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19, no passeio que fez ontem por cidades-satélites de Brasília, contrariando as normas de segurança para deter a pandemia. Mas a única certeza que se tem, até agora, sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina é que elas matam, se mal administradas.
O interesse sobre os dois componentes de remédios contra a malária foi despertado porque tiveram êxito em dois pequenos estudos sobre a Covid-19. O primeiro foi descartado porque tinha erros graves. O segundo foi realizado com seis pacientes e não comprovou eficácia. Mostrou que reduziam a concentração de vírus. Isso não significa deter a doença, cuja fase grave é causada por inflamação e não mais pelo vírus propriamente dito.
O resultado indicou potencial apenas para testes num número maior de pacientes. E é isso que a OMS e 50 países vão fazer, não só com elas, mas com outras drogas, como o muito mais promissor remdesivir.
Testar não é não é o mesmo que dar esses remédios indiscriminadamente a todos os pacientes graves. Os testes da OMS servirão para descartar mais depressa tudo o que não funciona e levar adiante as drogas que mostram eficácia num número significativo de pacientes.
Existe uma máxima em ciência: o risco de um medicamento não pode ser maior do que o benefício que ele oferece. Esse é o caso da cloroquina e da hidroxicloroquina. O risco é muito maior do que os supostos benefícios.
Se são perigosas e não têm garantia de eficácia, por que então chamam tanta atenção? Porque o presidente Donald Trump, criticado por desdenhar a pandemia e demorar a agir, anunciou, sem qualquer embasamento, que elas eram uma esperança. Bolsonaro, igualmente sob críticas, não tardou a repetir. Trump voltou atrás. Bolsonaro, não.
Não é a primeira vez que Bolsonaro tenta dar à população pílulas sem comprovação alguma, mas que prometem maravilhas. Em 2016, quando era deputado federal, fez dobradinha com a então Presidente Dilma Rousseff para dar a chamada “pílula do câncer” aos pacientes graves da doença. Em janeiro deste ano, já presidente, voltou à carga e criticou o Supremo Tribunal Federal por ter proibido a pílula, feita de fosfoetanolamina.
A fosfoetanolamina foi totalmente fracassada em testes. A pílula foi criada por um professor do Instituto de Química da USP chamado Gilberto Chierice. Ele morreu no ano passado, acusado de curandeirismo pela própria universidade.


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