Desde que
assumiu a presidência do BNDES, o economista Paulo Rabello de Castro vem
provocando ruídos com a equipe econômica liderada pelo ministro Henrique
Meirelles. Começou criticando a nova taxa de juros do banco estatal, a TLP,
antes dela ser aprovada. Depois questionou, e está negando com todas as forças,
a devolução de uma parcela do que o BNDES deve ao Tesouro Nacional. Nesta
quarta-feira (04), Rabello de Castro acabou com as dúvidas de quem vê nesta
agenda um projeto politico.
“Os juros
altos são a instalação da pornografia econômica no Brasil”, disse ao participar
de um evento em São Paulo. “Queremos mais moralidade no Brasil? Comecemos pelos
juros!”, emendou.
“Ele é
candidato. Quer ser presidente do Brasil, já chegou lá pensando nisso”, disse
um assessor especial do governo. No mercado financeiro muitos analistas e
executivos têm a mesma visão da fonte ouvida pelo Blog. Por enquanto ninguém dá
muita bola para os discursos inflamados de Rabello de Castro, desde que ele
tenha alguma vitória sobre Henrique Meirelles, como não devolver os R$ 130 bilhões no ano que vem. A dívida
do BNDES com o Tesouro é estimada em R$ 450 bi.
“Não estou
dando peso para o Paulo (Rabello de Castro). As opiniões dele são bem
conhecidas e ele é candidato a presidente da república”, falou com
tranquilidade o executivo de um grande banco de investimento no Brasil.
O fato de
não ser novidade para os colegas de governo ou para o mercado, não significa
que as bravatas de Rabello de Castro sejam inofensivas. A agenda política do
presidente do BNDES passou a ser de defensor da estatal como se ela estivesse
sendo atacada por maus feitores. Ele está um pouco atrasado nesta missão,
porque o BNDES foi realmente atacado por gente muito má até dois anos atrás. A
gestão responsável e rigorosa do banco, especialmente depois do que se viu no
governo petista, ficou para segundo plano?
Aliás, se
pensarmos em malfeitores e, até aproveitando a inspiração de Rabello de Castro,
a “pornografia econômica” foi instalada no BNDES com os quase R$ 500 bilhões
que vieram do Tesouro Nacional – que emitiu dívida pública para tal – e que
foram emprestados por uma taxa de juros ainda menor do que a praticada pelo
próprio banco, e vai nos custar centenas de bilhões de reais até 2060, quando
termina o último contrato.
Falar mal
dos juros no Brasil não é privilégio do presidente do BNDES. Do ponto de vista
do mérito da questão, quem pode lhe tirar a razão? A taxa básica praticada aqui
é campeã mundial e estamos há anos tentando nos livrar deste título – sem
sucesso, pelo menos até agora. A queda da taxa que vem sendo conduzida por Ilan
Goldfajn no Banco Central tem sido o processo mais adequado e consistente que
já tivemos desde o Plano Real. A Selic pode chegar a 7%, ou menos nos próximos
meses - um cenário nem sonhado há um ano.
O
presidente do BNDES critica também a taxa de juro real, ou seja, a que desconta
a inflação, que segue muito alta, ele também tem razão. Se a taxa básica cair
para 7%, com um IPCA de 3%, ela será de 4% (numa conta de padeiro). Na comparação
com o mundo desenvolvido, que tem taxas reais negativas, o título mundial segue
no nosso pescoço. Na comparação com o nosso próprio histórico, que inclui as
conjunturas que atravessamos ao longo das duas últimas décadas, 4% é bem baixo
e, considerando o equilíbrio necessário para a inflação não desandar novamente,
ela estaria abaixo do chamado juro neutro – aquele capaz de manter o processo
inflacionário sob controle.
Rabello de
Castro ainda chora pela TJLP, a taxa que tão logo será a ‘ex’ praticada pelo
BNDES. "Só o juro nominal cai. A TJLP se esqueceu de cair. Continua rígida
nos 7%", disse. Na decisão mais recente do governo, a taxa foi mantida em
7% e deverá permanecer assim até que entre em vigor a TLP, a recém aprovada
pelo Congresso Nacional. Não há mais tempo para defender o passado, que
inclusive começa a acabar daqui três meses.
Aliás,
um dos maiores méritos da TLP é a transparência. Com a nova taxa, se o governo
quiser dar subsídios para o crédito concedido pelo BNDES, terá que ter aprovação
do Congresso e prever o gasto no orçamento federal. Daqueles R$ 500 bilhões que
saíram dos cofres do banco com juros de pai para filhos prediletos – ambos
envolvidos no maior escândalo de corrupção do país – criaram a conta bilionária
que deveremos pagar, sem que isso tenha sido uma escolha da sociedade.
Paulo
Rabello de Castro assumiu o BNDES depois da saída tempestiva de Maria Silvia
Bastos. Ele veio como uma escolha pessoal de Michel Temer, depois de ter
assumido o IBGE logo no começo do novo governo. A presidência do banco de
fomento é um cargo técnico e exige muita serenidade e, especialmente, uma boa
relação com os condutores da economia, como presidente do BC e os ministros da
Fazenda e do Planejamento. Um dos aprendizados que tivemos da gestão petista,
entre tantos outros, foi exatamente em função do excesso de intervenção
partidária nos bancos públicos.
Se
continuar subindo tom de voz, e descendo na categoria estilo, Paulo Rabello
pode garantir votos, já que ataca o governo com a pior popularidade da história
do Brasil. Mas comprometerá a qualidade de sua gestão no BNDES, especialmente
agora que a economia se recupera e muitos empresários, não só os escolhidos,
podem precisar do banco de fomento para investir em sua capacidade de produção
- não usar o dinheiro para, Deus sabe lá o quê, como fizeram os últimos
agraciados pela administração política que comandou o BNDES.

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