Nelson
Teich pediu exoneração, nesta sexta-feira (15/05), do cargo de ministro da
Saúde. Ele já havia manifestado a dificuldade de conciliar os desejos do presidente
Jair Bolsonaro sobre o uso de cloroquina e flexibilização do
isolamento com o que é possível fazer dentro dos recursos disponíveis no país e
o que preconiza a ciência.
Por outro
lado, Bolsonaro, na saída do Palácio da Alvorada, avisou que ia alterar hoje o
protocolo de uso da cloroquina no combate ao coronavírus. Ele
afirmou que “é direito do paciente” decidir sobre o seu tratamento e defendeu o
uso da droga “desde o começo”.
Atualmente,
a recomendação do Ministério da Saúde é que o medicamento seja usado no
tratamento de pacientes em casos graves da Covid-19. A indicação constava em
protocolo publicado pelo ministério ainda na gestão do ex-ministro Luiz
Henrique Mandetta. Até o momento, não houve nenhuma pesquisa ou estudo que
comprovasse o efeito positivo e indiscriminado da cloroquina no tratamento da
doença.
Em meio à
pandemia, que soma 202.918 casos confirmados de infectados pelo coronavírus no
Brasil e 13.993 mortes provocadas pela doença, já é segunda troca no Ministério
da Saúde. Em menos de um mês, Mandetta
foi demitido do cargo pelo presidente, após um processo de fritura,
também pela resistência na indicação indiscriminada da cloroquina e na
flexibilização do isolamento social.
Nesta
semana, Teich foi criticado também por gestores estaduais e municipais por
diretrizes para orientar a flexibilização do isolamento social.
“É
inoportuno falar de flexibilização quando vemos aumentar a cada dia o número de
mortos e de casos, e de pessoas adoecendo gravemente. Estamos subindo ainda a
montanha da epidemia”, afirma o presidente do Conselho Nacional de Secretários
Estaduais da Saúde (Conass), Alberto Beltrame.
Os
primeiros pontos do plano foram anunciados pelo ministro no mesmo dia em que o
presidente Bolsonaro decidiu considerar salões de beleza e academias como
serviços essenciais. A normativa do Ministério da Saúde não é obrigatória, mas
ela aumentou a pressão política contra o distanciamento rígido que vem sendo
implementado em alguns estados para desacelerar o contágio do vírus.
O
secretário-executivo da pasta, general Eduardo Pazzuelo, que não é médico, deve
assumir a pasta até o presidente definir o substituto de Teich. O nome do
deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que também é contra as medidas de
isolamento social, voltou a ser ventilado no Planalto.
“TODOS TÊM
QUE ESTAR AFINADOS”
O processo
de fritura de Nelson Teich dentro do governo foi intensificado nos últimos
dias.
Nesta
semana, Nelson Teich foi surpreendido, durante uma coletiva de imprensa, ao
saber que um decreto do presidente incluiu academias e salões de beleza entre
serviços essenciais e limitou-se a dizer que essa é uma decisão do Ministério
da Economia e do presidente.
Bolsonaro
declarou inicialmente que não precisava falar com o ministro sobre o tema. Mais
tarde, ao chegar ao Palácio da Alvorada, o presidente afirmou que faltou apenas
ter avisado Teich e que o ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, admitiu
essa falha.
Nos últimos
dias, Teich passou a ser alvo também de ataques nas redes sociais.
Bolsonaristas estão dando impulso à hashtag #ForaTeich.
O ministro da
Saúde, que dizia estar “100% alinhado” com Bolsonaro, deu declarações sobre a
não comprovação, até agora, da eficácia da cloroquina no tratamento da
Covid-19, além de prever em nova diretriz a determinação do bloqueio total,
conhecido como “lockdown”.
Na
quarta-feira (13), Bolsonaro voltou a insistir na utilização da cloroquina como
tratamento para o coronavírus. Ao sair do Palácio da Alvorada, o presidente
afirmou que vai discutir com o ministro da Saúde, Nelson Teich, sobre o uso do
medicamento. Segundo ele, a cloroquina precisa ser pensada de forma emergencial
no tratamento de pacientes com a Covid-19.
“Na minha
opinião porque não sou médico, mas muitos médicos do Brasil e de outros países
entendem que a cloroquina pode e deve ser usada desde o início, mesmo sabendo
que não há uma comprovação científica de sua eficácia”, disse Bolsonaro.
E ainda
acrescentou, em relação ao ministro, que declarou ontem que a cloroquina tem
efeitos colaterais e deve ser usada com cuidados: “Todos têm que estar
afinados”.
MINISTÉRIO
Dentro do
ministério, Teich também se vê isolado desde que assumiu o cargo. Ele exonerou
técnicos e nomeou pelo menos sete militares, entre eles o secretário-executivo,
considerado o número dois da pasta, general Eduardo Pazzuelo.
À crítica
de que o ministério está com muitos militares à frente de funções importantes,
Teich respondeu que se trata de “um tempo de guerra”, e os militares trazem
planejamento estratégico.
Mas
ex-funcionários alegam que os novos indicados não têm experiência na área, além
de terem retirado autonomia que as secretarias da pasta tinham.
CONGRESSO
Ao
contrário de Mandetta, que era muito elogiado no Congresso, Teich recebeu duras
críticas do Parlamento.
Os
senadores cobraram respostas assertivas do ministro em relação à necessidade de
isolamento social como forma de combate à pandemia.
“Estamos em
um momento de início de explosão de casos de mortes. Não é momento para
indecisão. É preciso ser claro e passar para o país uma mensagem da autoridade
máxima do Ministério da Saúde: isolamento social, sim ou não? Se é por região,
quais as regiões têm e quais não têm? Está dúbio, me desculpe dizer com tanta
veemência”, disse o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).
Na Câmara,
Teich defendeu que o isolamento social no Brasil não fosse politizado. “Não dá
para trabalhar como se o lockdown fosse a essência de tudo”.
Os
deputados também reclamaram: “Ministro não respondeu sobre a necessidade de
recursos, não respondeu sobre os leitos, não respondeu sobre nada”, afirmou o
deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP).

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