Jair
Bolsonaro é armamentista.
E fala
palavrão. Vê inimigos até na sombra e xinga o tempo todo.
Foi eleito
presidente apesar disso. Para muitos, justamente por isso.
A liberação
da tão falada reunião de ministros em 22 de abril mostrou o lado nu e cru de um
presidente que sempre se apresentou nu e cru.
Ninguém
pode se dizer surpreso com o que viu.
Quem tinha
ojeriza ao jeitão do presidente ganhou uma razão a mais para alimentar a
ojeriza.
Quem via na
montagem de seu ministério uma reunião de malucos e despreparados, saiu do
vídeo com a impressão reforçada. Hoje são maioria.
A fala de
Damares Alves, pedindo a prisão de governadores e falando de contaminação
criminosa de índios por parte de pessoas interessadas em prejudicar o governo
federal é uma pérola.
A de
Abraham Weintraub, ministro sem modos da Educação, também. Uma pérola sobre a
anatomia do ódio, do Supremo a ciganos e povos indígenas.
Só que
tanto um quanto o outro tem eco entre seus seguidores. Todo mundo conhece o
doidinho da esquina que acredita que o Brasil vendeu a Copa de 98 e Ronaldinho
simulou a convulsão para não dar tanta bandeira.
Ricardo
Salles é um pouco mais articulado. Chegou a pedir ao governo que aproveitasse
as atenções da imprensa no coronavírus para “ir passando a boiada” no Meio
Ambiente. Grave, mas em algum momento ele já tinha dado sinais de que queria
floresta em pé?
Ah, sim,
tem também o Paulo Guedes, que usou a reunião para dizer que tinha de vender
logo a “porra” do Banco do Brasil. Não sei como os funcionários da instituição
receberam a reverência, mas os planos desestatizantes da equipe econômica eram
cristalinos desde a campanha. Guedes só não colocou a toalha da mesa da reunião
à venda porque não dá bilhão.
E então
chegamos a Bolsonaro.
O ponto
nevrálgico da cena toda já havia sido divulgado. É bem claro o recado para
Sergio Moro sobre o descontentamento com os trabalhos da Polícia Federal,
sobretudo por não saber o que acontece, a não ser pela imprensa. Mas de fato
fala em “segurança” no meio da frase sobre a interferência.
O ato falho
pode ser revelador no campo da psicanálise, mas no campo jurídico cabe como uma
luva à sua estratégia de defesa. Mesmo tendo trocado sua segurança, uma
responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional, antes da reunião.
Moro deixou
o encontro e se demitiu pouco depois.
A
justificativa: não aceitava interferência de Bolsonaro na autonomia da PF.
Bolsonaro
mudou o comando da PF e a superintendência no Rio logo que Moro virou as
costas.
Moro tenta
mostrar que agiu por princípios, mas a imagem da reunião ministerial indica que
ele acabava de ser desmoralizado pelo presidente, que claramente deu a ele
diretas e indiretas sobre um possível descompromisso com o governo.
No pouco
que falou, Moro pediu para que recebesse, na manifestação que o governo
preparava, um pouco de crédito pelo trabalho de combate à corrupção e à
violência. Parecia injuriado com a forma como foi tratado.
A rusga
estava clara, mas a reunião não era só isso.
Ela mostrou
um lado do presidente que opositores amam odiar e seus apoiadores mais fieis
amam adorar.
Na reunião,
Bolsonaro agia como se soubesse que o registro da reunião poderia ser usado
para fins políticos. Para o bem (dele) ou para o mal (também dele).
Como se
falasse em cima de uma picape em frente à multidão, ele demostrava cansaço com
o que chamou de perseguição da imprensa a seus familiares.
Disse que
estava se lixando para a reeleição.
E que não
tinha amor ou apego à cadeira do presidente. “Zero”, ressaltou.
“Se tiver
que cair um dia, vamos cair lutando”, disse aos ministros. “Mas não por uma
babaquice de exame antivírus.”
Bolsonaro
afirmou também que era submisso apenas ao povo.
Que o
destino do país estava nas mãos de seu grupo de ministros privilegiados pela
missão. Que ninguém ali era acusado de corrupção.
E que via
como seu dever estar sempre onde o povo estava.
No caso,
fisicamente.
No meio da
pandemia.
Ele
minimizou a placa levantada por um “coitado” pedindo AI-5 em uma das
manifestações que participou.
Disse que
qualquer um podia pedir o que quisesse e estava se lixando para aquilo. O tempo
dos atos institucionais acabou, afirmou.
Disse
também que não queria dar golpe, mas que não aceitava ser golpeado.
E se
mostrou revoltado com medidas de governadores e “prefeitinhos” que queriam
prender a população por furar a quarentena.
Mostrou
também revolta com um suposto liberou geral dos presídios por causa do
coronavírus. A certa altura, perguntou como os ministros agiriam se soubessem
que um agressor de suas famílias fosse libertado pela caneta de algum
juiz.
Ah, sim: na
cabeça de Bolsonaro, povo livre é povo armado. Só com armas a população poderia
se precaver contra ditaduras. Para quem poucos dias depois falou em “guerra”
contra os governadores, a frase pode ser lida como um desejo fratricida. Ganha
gravidade com o contexto.
Aqui também
Bolsonaro mostra que já havia perdido pé da realidade fazia tempo no combate à
pandemia. Ele xingou o prefeito de Manaus, Artur Virgílio (PSDB), que estaria
abrindo covas coletivas apenas para espalhar o terror. Outra paranoia típica de
corrente de WhatsApp.
A fala foi
coroada por uma colocação de Paulo Guedes: podemos conversar com todo mundo do
establishment, mas somos diferentes deles.
O léxico
mostra que Bolsonaro e equipe aparentemente acreditam que fazem parte de uma
cruzada moralizante. Uma cruzada com muitos pés fora da realidade e declarações
de guerra contra tudo e contra todos que não sejam eles. Inclusive outros
Poderes e entes federativos.
A crise
ficou escancarada.
E isso, por
incrível que pareça, é música para os ouvidos de quem abraçou o bolsonarismo
como força política e um sentido para a vida. O desejo de disrupção está todo
ali.
Que ninguém
estranhe se a partir do fim de semana algumas frases ditas na reunião
estamparem camisetas amarelas de seus apoiadores como gritos de guerra.
É possível
escrever livros e livros mostrando que povo armado é povo que se mata, não povo
salvo de ditaduras. Pode-se dizer que ele esquece deliberadamente de muitos
fatos estranhos ao bater no peito e dizer que do seu lado não existe suspeita
de desvios (E o Queiroz? E o laranjal do PSL?).
Mas o que
importa mesmo é o que disse sobre a PF. Vai ser difícil chegar a algum consenso
no disse-que-disse-mas-queria-dizer.
À primeira
leitura, o maior flagrante da reunião é que ninguém ali parecia minimamente
preparado para o maior desafio histórico a ser enfrentado no país neste século:
a pandemia do coronavírus.
Bolsonaro
reivindicou seu direito de estar com o povo, e pronto. Não parecia atentar que
estar com o povo, em um contexto de pandemia, era furar todos os esforços de
contenção da disseminação do vírus que subiu a curva e já ceifou 20 mil vidas
no Brasil que prometia colocar acima de tudo.
(Photo by Andressa Anholete/Getty Images)

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