BRASÍLIA -
Em derrota para o governo, a Câmara dos Deputados aprovou nesta segunda-feira (13/04) o
texto-base do projeto de lei para ajudar estados e municípios a
combaterem a
crise do coronavírus. O texto tem impacto estimado de R$ 89,6 bilhões, mais
que o dobro do oferecido pelo Tesouro Nacional, e não prevê congelamento de
salários como contrapartida, como queria a equipe econômica.
A proposta
foi aprovada por 431 votos a 70 e agora precisa ser analisada no Senado. O
líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO) — único a orientar contra
a proposta — disse que vai sugerir que o presidente Jair Bolsonaro vete trechos
do texto, por recomendação do ministro da Economia, Paulo Guedes.
— O governo
vai atuar no Senado para modificar (a proposta). Existe a possibilidade
concreta de o presidente avaliar a possibilidade de veto. Essa discussão ainda
vai continuar.
O principal
ponto da proposta é a previsão de repasses federais para compensar governos
locais por perdas na arrecadação, medida criticada pelo governo. Só esse trecho
tem impacto estimado de R$ 80 bilhões, segundo cálculos do relator da proposta,
deputado Pedro Paulo (DEM-RJ).
O valor é
mais que o dobro que o previsto pelo governo, que admitia repassar algo entre
R$ 32 bilhões e R$ 40 bilhões. Os outros R$ 9,6 bilhões seriam da suspensão da
dívida com bancos públicos, trecho com o qual a equipe econômica concorda.
Guedes é
contra compensar arrecadação
Mais do que
criticar o valor do programa propriamente dito, o ministro da Economia, Paulo
Guedes é contra o mecanismo elaborado pelos deputados para auxiliar os entes
federados. A maior crítica é atrelar os repasses à queda na arrecadação de
impostos. Guedes disse ao GLOBO que a ideia é uma "irresponsabilidade
fiscal e incentivo perverso", por permitir que gestores locais sejam menos
cuidadosos com suas finanças.
O texto
prevê que o Tesouro compensará governos locais pelas perdas na arrecadação de
ICMS (dos estados) e do ISS (dos municípios). Caso seja aprovada no Senado, a
garantia será concedida por seis meses, entre abril e setembro, com repasses
mensais feitos pela União.
O custo do
programa aprovado nesta segunda é menor do que a versão que chegou a ser
analisada semana passada. Segundo o Tesouro, o impacto daquela versão chegaria
a R$ 222 bilhões.
O impacto
reduzido é resultado de um acordo parcial, em que o relator atendeu a alguns
pedidos do Executivo, como a retirada do aval para empréstimos com garantia da
União, que teria impacto de R$ 55 bilhões. Também ficou de fora a suspensão das
dívidas com a União, já concedida pelo Supremo Tribunal Federal.
Só líder do
governo orienta contra
A proposta,
relatada pelo deputado Pedro Paulo (DEM-RJ), foi a terceira adaptação de um
plano de socorro aos governos locais, após quase duas semanas de impasse entre
o Executivo e o Legislativo. Ao avançar com o texto, o presidente da Câmara,
Rodrigo Maia (DEM-RJ), aumenta o desgaste com o ministro da Economia, Paulo
Guedes.
A versão,
no entanto, obteve amplo apoio das lideranças da Câmara. Todos os partidos
orientaram a favor da proposta. Antes da votação, o líder do governo, Vitor
Hugo (PSL-GO) criticou a medida e pediu voto contra.
— Não há
qualquer intenção do governo de não ajudar estados e municípios, pelo
contrário. Havia até uma possibilidade sinalizada pelo Ministério da Economia
de aumentar o valor que o governo falou inicialmente. Mas, infelizmente a forma
como vai ser distribuída, como foi colocada no substitutivo , recompondo ICMS e
ISS, vai nos impedir neste momento de votar junto no mérito. Vamos orientar não
— disse o deputado, antes da votação.
Durante a
votação, Maia enviou mensagem em uma lista de transmissão em que justificava a
urgência da decisão. "Ninguém quer que o governo dê mais do que foi a
arrecadação nominal. O que estamos propondo é que a União reponha o que estados
e municípios perderam durante esta crise. A arrecadação caiu e as medidas têm
de ser urgentes", escreveu o presidente da Câmara.
Sem
benefícios fiscais
Apesar de
não ter incluído a previsão de suspensão de reajustes salariais, o relator
incluiu um trecho que proíbe a concessão ou ampliação de benefícios fiscais. Ou
seja, governadores e prefeitos não poderão usar o dinheiro extra para dar
incentivos. As exceções são medidas emergenciais para pequenas empresas, como a
que já foi aprovada para as companhias do Simples Nacional.
A proposta
também proíbe que a receita extra seja usada para aumentar despesas "não
diretamente relacionadas ao combate dos efeitos da calamidade" da
Covid-19. Os gastos dos governos locais nesse período serão acompanhados por
uma subcomissão formada por deputados e senadores, de acordo com o texto.

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