Se as 2.798 mortes reportadas nas últimas 24 horas não serviram para franzir a testa de Jair Bolsonaro, a pesquisa Datafolha divulgada na noite de terça-feira 16 talvez cause algum arrepio ao presidente que não errou nenhuma ao longo da pandemia.
O
levantamento mostrou que mais da metade da população (54%) já avalia como ruim
ou péssima sua gestão de combate ao vírus - seis pontos percentuais a mais do
que o registrado em janeiro.
Somam 22%
os que acham que está tudo certo. Mantida assim, a distância entre uns e outros
pode custar o que mais importa para o presidente desde que assumiu: a
reeleição.
A
estratégia de proibir no
governo a discussão de medidas de isolamento e atacar prefeitos
e governadores por tudo o que aconteceu até aqui já não cola. Para 43% dos
brasileiros, ele é o maior culpado pela fase aguda da crise, contra 17% dos que
apontam o dedo para governadores e 9%, para os prefeitos.
A cada dia
que passa fica mais difícil dissociar a gestão da crise da avaliação do próprio
governo, hoje aprovado apenas por 30%. O índice dos que consideram sua
administração ruim ou péssima é de 44%.
A essa
altura do primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da
Silva e Dilma Rousseff tinham números melhores. Bolsonaro só ganha de Fernando
Collor, que nessa fase do governo já se encaminhava para o abate do
impeachment.
Os números
do Datafolha mostram que são minoritários, embora barulhentos, os brasileiros
dispostos a sair às ruas em defesa do capitão que em novembro chamou de
“conversinha” a possibilidade de haver uma segunda onda de contaminações por
covid.
Meses
depois, o país enfrenta hoje o pior momento da pandemia, aproximando-se das 3
mil mortes diárias e tirando de cena um dos últimos grandes panos que
apoiadores usavam para limpar a barra do governo: o número de mortos por milhão
de habitantes.
Numericamente
o Brasil é o segundo país onde mais se morre pelo “resfriadinho” que não
causaria mal às populações da região Norte porque a população estaria
“vacinada” com a cloroquina.
O primeiro
país em números absolutos ainda são os EUA, onde a carnificina se tornou o
maior legado da gestão Donald Trump. Lá, porém, os índices de mortes e
contaminação estão em queda desde que o país tirou da presidência, pelo voto,
seu negacionista-mor. Em março, a média móvel de novos casos de Covid-19
diminuiu 74,9% em comparação ao pico registrado em janeiro.
Por aqui, a
queda de braço entre achismo e razão não oferece perspectiva nem de melhora
significativa da economia, pilar onde Bolsonaro se apoia, nem do fim do
morticínio. Dados da Fiocruz apontam que o país já atravessa o maior colapso
sanitário e hospitalar da sua história.
Experiências
internacionais mostram que, na ausência de um plano de vacinação em massa,
medidas drásticas de isolamento social são a única ferramenta capaz de derrubar
o número de contaminados. É o que perceberam os gestores municipais que, no
momento mais crítico, deixaram de ouvir os panelaços para dar ouvido aos
cientistas. E viram, afinal, o número de internações cair.
No plano
federal, a preocupação é outra, como relatou a médica cardiologista Ludhmila
Hajjar após ser cogitada para assumir o Ministério da Educação. “Se você fizer lockdown no Nordeste vai me foder e eu perco as
eleições”, teria dito o comandante.
Prioridades
são prioridades.

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