Em meio à
pressão dos partidos por espaços na máquina pública em troca de apoio, o
Governo Bolsonaro iniciou uma varredura de cargos nos estados. No Ceará, as
exonerações nos quase 40 órgãos federais acontecem aos poucos. Enquanto isso,
governistas da bancada federal cearense aguardam com expectativa o chamado para
indicar apadrinhados. A demora nas negociações, no entanto, tem provocado
insatisfação e dúvida entre parlamentares.
Isso porque
o Palácio do Planalto promete restringir as vagas disponíveis para nomeações
políticas e exige que elas integrem um “banco de talentos”. De acordo com o
comando estadual do PSL, o Ceará conta com mais de mil cargos comissionados de
segundo e terceiro escalões, espalhados nas repartições federais.
A lista
inclui o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama),
o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), além de fundações,
universidades e agências reguladoras. Até o momento, a maioria dos postos de
comando desses órgãos (direção e superintendência) não foi trocada: até ontem,
a reportagem localizou apenas duas exonerações referentes ao Ceará no Diário
Oficial da União (DOU). Com iminência de rebelião entre parlamentares alinhados
ao Governo Federal, a Casa Civil intensificou as negociações com as bancadas
dos estados.
Na semana
passada, o ministro da Pasta, Onyx Lorenzoni, se reuniu com oito dos 22
deputados federais cearenses e prometeu um novo encontro com o grupo depois do
feriado de Carnaval para tratar sobre os cargos com o líder da bancada. O
secretário especial do Governo para a Câmara, Carlos Manato, diz que os ministros
entregaram um mapa com as vagas vinculadas às Pastas que estão disponíveis em
cada Estado.
‘Banco de talentos’
Como já
havia adiantado ao Diário do Nordeste, no mês passado, Manato frisou que as
indicações políticas devem seguir critérios fixados em um decreto. Segundo ele,
esse documento já está pronto para ser publicado. “Vai ter que ter ficha limpa,
não pode ser consanguíneo, tem quer ter ensino superior, com experiência
comprovada no cargo pelo trabalho, no papel mesmo; pós-graduação, MBA”, listou.
A ideia é
que os deputados e senadores apresentem “currículos” de candidatos para os
cargos federais de primeiro escalão. Eles vão integrar o chamado “banco de
talentos”. Os nomes passarão por uma checagem no Gabinete de Segurança
Institucional (GSI), que investigará se respondem a processo. Depois, serão
avaliados pelos ministros, que vão decidir se aprovam ou não.
Carlos
Manato voltou a negar que haja “toma lá, dá cá” na distribuição dos cargos
entre aliados para garantir apoio no Congresso Nacional. “Seria ‘toma lá, dá
cá’ se eles ficassem com o cargo e fossem obrigados a votar com a gente (na
reforma da Previdência). A estratégia do presidente (Bolsonaro) é receber os
líderes, pedir apoio, ir na Câmara. Quem quiser votar com a gente, vota, se não
votar, a gente não vai tirar cargo”.
Militares na recruta
Nem todos
os cargos comissionados e funções de confiança, porém, estarão “disponíveis”
para indicação política. O presidente do PSL no Estado, deputado Heitor Freire,
diz que em alguns órgãos serão recrutados militares. No Ceará, a primeira
indicação ocorreu na Secretaria de Patrimônio da União (SPU). O coronel da
Polícia Militar do Ceará, Vandesvaldo de Carvalho Moura, foi nomeado para
comandar o órgão, no lugar de Cláudio Germano Diogo de Siqueira.
“Alguns
(órgãos) que já tiveram histórico de muita corrupção vão estar sendo vigiados e
vai ter gente de confiança, principalmente militar, porque esses órgãos são de
gestão, (o chefe) não precisa ser técnico, precisa ser uma pessoa idônea”,
defendeu.
Ainda
segundo o dirigente, outro militar deve ser indicado para o Ibama no Ceará. O
então superintendente do órgão, Herbest Pessoa, foi exonerado ontem.
Entretanto, para o líder da bancada cearense, deputado Domingos Neto (PSD), o
Governo está “completamente perdido” nas negociações com parlamentares para
indicação dos cargos.
“O Palácio
do Planalto precisa estar mais em sintonia com o Congresso, isso tem a ver com
os cargos estaduais. O Governo precisa dizer como vai funcionar, se vai ser
através dos líderes, dos coordenadores de bancada. Ninguém sabe quem é o
responsável. Está faltando planejamento na articulação política”, apontou.
Sem respostas
O deputado
Moses Rodrigues (MDB) também tem dúvidas sobre como as indicações vão
acontecer. “A definição que existe no Governo é de que uma parte será de
militares e a outra de técnicos. Resta saber quem indicará os técnicos”. Ele,
porém, diz não ter expectativa de ser agraciado com cargos federais no Estado.
Já o
deputado Jaziel Pereira (PR) espera ser convocado pelo Planalto. “Se existem
cargos e vão ser preenchidos por indicações, eu não sou hipócrita. Se tem
indicação para ser feita, eu acho que deve ser feita com aqueles deputados que
têm esse alinhamento (com o Governo), sem comprometer a alma”, afirmou. Jaziel,
Moses e Domingos são três dos 10 parlamentares da bancada cearense que
confirmaram apoio ao Governo Bolsonaro.
Diário
do Nordeste

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