| ELEIÇÕES 2018 | Juntas, 16 mulheres
que concorreram à vaga de deputada no Ceará receberam investimentos públicos,
mas não somaram nem 7,5 mil votos
Candidatas
à Assembleia do Ceará pelo MDB, Professora Leila e Dra. Zuíla tiveram uma das
piores relações custo/benefício da disputa na história: mesmo recebendo R$
772,7 mil dos partidos, elas tiveram, juntas, só 653 votos. Junto com as
emedebistas, outras 14 candidatas no Estado acumularam quase R$ 2,6 milhões em
recursos públicos e tiraram apenas 7,5 mil votos - cerca de um quarto do
quociente para eleger um vereador de Fortaleza.
A informação tem base em
levantamento do O POVO em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo a
Justiça, 16 candidatas de dez partidos receberam mais de R$ 50 mil das siglas -
sempre via fundo eleitoral ou partidário - e não tiveram sequer mil votos. Em
sete desses casos, repasses foram superiores a R$ 100 mil.
As ocorrências surgem no
momento em que o Ministério Público Federal (MPF) investiga a existência de
candidatas "laranjas" por todo o Brasil. Como o fenômeno "alto
custo/poucos votos" praticamente não existe entre homens, a suspeita é que
candidaturas sejam criadas para burlar lei que obriga chapas eleitorais a terem
composição no mínimo 30% feminina.
A mesma legislação também
prevê cota feminina de 30% para investimentos dos fundos eleitoral e
partidário. Nos casos de repercussão nacional, a suspeita da Justiça é de que
parte das verbas enviadas para candidatas teria sido destinada para outros fins
que não o financiamento das campanhas.
Procuradas pelo O POVO,
Professora Leila e Dra. Zuíla não quiseram falar sobre a verba que receberam do
MDB. As duas, no entanto, se mostraram bastante surpresas com o valor exibido
no portal do TSE. "Eu recebi isso aí? Você tá.. (risos) você tá muito mal
informado", diz Zuíla. Já Leila afirma ter recebido R$ 250 mil, e não os
R$ 397 mil que ela própria teria declarado à Justiça.
Secretário-geral do MDB do
Ceará, João Melo disse que a escolha do partido em priorizar as duas ocorreu
com base no "potencial" demonstrado por ambas em eleições anteriores.
"Esses nomes (Leila e Zuíla) vêm aparecendo sempre, você pode fazer uma
pesquisa regressiva, e esse pessoal tem demonstrado um potencial que a gente
acreditaria que tinha tendência de melhorar", diz.
A justificativa é
meia-verdade: as duas já haviam disputado eleições antes, mas ambas tiveram
desempenho bem distante da excelência. Professora Leila, por exemplo, só havia
disputado cargo de vereadora de Eusébio em 2016, mas teve a candidatura
indeferida na Justiça. Já Zuíla concorreu a deputada estadual em 2014, gastou
R$ 700 e teve apenas 146 votos.
"Há também uma
dificuldade nacional, que é algo que tem em todos os partidos, que é a de
compor quadro de mulheres candidatas", diz João Melo. Ele também atribui
parte do fracasso das duas à "situação estranha" da política
nacional. "Partidos como o PT, MDB, e outros mais que estavam no governo,
todos foram olhados com muita reserva", diz.
Os casos são semelhantes ao de
Débora Ribeiro dos Santos, que teve investigação aberta pelo MPF após receber
R$ 274 mil do fundo eleitoral e obter apenas 47 votos. Conforme série de
reportagens do O POVO revelou, a candidata é cunhada do deputado federal Vaidon
Oliveira (Pros) e teria contratado cerca de 140 pessoas para campanha com
sinais de ser de fachada - algumas delas ex-funcionários de Vaidon.
Outra candidatura alvo do MPF
é a de Gislani Maia, que concorreu a deputada estadual pelo PSL. Conforme
reportagem do jornal O Globo revelou, ela recebeu R$ 150 mil do partido a dois
dias do 1º turno e, no mesmo dia, declarou gastos de R$ 143 mil em três
gráficas. Ela nega quaisquer irregularidades.
Bate-pronto com Dra Zuíla,
candidata a deputada estadual pelo MDB
Dra. Zuíla (MDB), candidata a deputada estadual
OP: A senhora foi
candidata na última eleição?
Zuíla: Fui sim.
OP: Como foi essa decisão,
quem te convidou?
Zuíla: Por que você está
fazendo essa pergunta?
OP: Por que eu sou
jornalista do O POVO e estamos apurando essas candidaturas que..
Zuíla: Aham, e como é que
foi?
OP: A gente está vendo
essas candidaturas pequenas que receberam muito dinheiro público, e a senhora
foi uma dessas campanhas, que recebeu quase R$ 380 mil do partido...
Zuíla: Eu recebi isso aí?
Eu recebi isso aí? Você tá.. (risos) você tá muito mal informado, viu (risos)
OP: Então está errado?
Zuíla: Tá erradíssimo.
Você tá muito mal informado..
OP: Por quê?
Zuíla: Porque não foi essa
quantia, se você quer saber quanto eu recebi... olha, para que essa pergunta
relacionada à dinheiro?
OP: Porque é o valor que
aparece no portal do TSE..
Zuíla: Não, que eu? Que eu
ganhei R$ 380 mil? No portal do TSE? Que eu recebi R$ 380 mil? Tá dizendo isso?
OP: Sim. Está lá, no
portal do TSE. Está errado?
Zuíla: Olha, eu vou passar
para a minha assessora jurídica, tá?
OP: Tudo bem? Como..
Zuíla: A minha campanha
foi óoootima (desliga)
Bate-pronto com professora Leila, candidata a deputada estadual pelo
MDB
Professora Leila (MDB), candidata a deputada estadual
OP: Como foi sua decisão
de ser candidata, quem te chamou para o partido?
Professora Leila: Como
assim?
OP: Como foi sua
candidatura, porque a senhora decidiu sair?
Professora Leila: Eu tinha
saído como vereadora pelo Eusébio, e o juiz tinha negado minha candidatura.
Então agora eu podia, então fui candidata.
OP: E como foi sua
campanha?
Professora Leila: Foi
muito boa, eu tirei 395 votos, né. E tive votos em 23 municípios do Estado do
Ceará.
OP: Mas como considera,
foi pequena, grande a campanha?
Professora Leila: Eu
recebi dinheiro do partido, né, mas mesmo assim para atingir o estado todo foi
muito pouco tempo para a gente trabalhar. O TRE só deixa muito pouco tempo, não
pode fazer antes, aí fica sem condição para trabalhar todo o estado. Mesmo que
você faça três reuniões por dia não tinha condição, muita gente nem manteve a
candidatura.
OP: Com relação ao
tamanho, vocês fizeram muitos santinhos, bandeira?
Professora Leila: Sim,
sim, fiz bandeira, fiz santinho, fiz programa de televisão, fiz tudo.
OP: É que vimos que você
recebeu bastante dinheiro do partido...
Professora Leila: Como é?
Não estou te ouvindo bem...
OP: É que a senhora
recebeu quase R$ 400 mil do partido e só teve 395 votos. Por quê a senhora...
Professora Leila:
(interrompendo) Não, eu não recebi R$ 400 mil não, eu recebi R$ 250 mil.
OP: Por que então na
divulgação da Justiça aparece quase R$ 400 mil?
Professora Leila: Na
Justiça?
OP: Sim, na página do TSE
mostra que a senhora recebeu mais de R$ 397 mil.
Professora Leila: Não. Na
página do TSE não tem isso não. Para a professora Leila? Você tem certeza que
era para a professora Leila? Procure lá que tem R$ 250 mil...
OP: Mas quem articulou
isso? Como foi...
Professora Leila: Meu
filho, eu não sei se você é do jornal O POVO mesmo, obrigado viu (desliga)

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